Recorrer à Justiça não resolve nada

Março 31, 2025 . 12:00
O Primeiro-ministro Luís Montenegro e o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, resolveram inovar na vida política nacional ao decidirem recorrer à justiça para resolverem conflitos políticos e, ainda que tenha sido por razões diferentes, prevejo que as queixas lhes sejam devolvidas.

De facto, não vejo como é que a justiça pode evitar que o Chega faça ataques políticos indecorosos, ou possa evitar que o José Rodrigues dos Santos faça entrevistas com uma notável dose de agressividade. Pessoalmente, penso que, em ambos os casos, os queixosos fariam melhor em recorrer à opinião pública e à luta po­lítica na tentativa de convencer os eleitores das suas posições e não o fazendo por receio que a justiça não faça grande coisa para alterar os resultados das próximas eleições.
Luís Montenegro faria melhor em confrontar o Chega com as suas próximas desgraças e mostrar aos eleitores que aquela forma de fazer política suja não resolve o problema dos baixos salários ou da saúde e que é ele que os pode resolver e não o Chega. Poderia mesmo acrescentar que os votos que os portugueses deram a André Ventura não servem para nada, porque o Chega como partido do protesto terá o mesmo destino do PCP, ou seja, uma morte lenta. Poderia mesmo acrescentar que é o PSD que está em posição de resolver muitos dos problemas que os eleitores do Chega têm nas suas vidas e que, se o Chega quiser ter alguma autoridade na resolução dessas dificuldades vividas pelos seus votantes, seria melhor que fizesse alguma coisa para isso e não será através de insultos que o conseguirá. De facto, a continuar assim, o Chega apenas contribuirá para que o PS possa impedir com o seu esquerdismo a melhoria da vida dos portugueses.
O caso de Paulo Raimundo é muito diferente, porque teve a oportunidade de rebater todas as questões colocadas por José Rodrigues dos Santos e não o fez. Teve a mesma oportunidade de se calar, de sair da sala, de escrever um texto a explicar aos portugueses a forma com um Governo do PCP conseguiria a paz na Ucrânia. Ou seja, poderia mesmo ter tentado usar as capacidades e as ideias do PCP para demonstrar aos eleitores portugueses como evitar o rearmamento de Portugal e da União Europeia. Pensar que pode ser a justiça a fazer isso, ou que um processo pode melhorar o futuro do partido é apenas mais um devaneio a juntar à morte lenta de muitos anos. Pessoalmente, lamento-o, mas com muitas propostas de paz e sentados na Assembleia da República perante a presença de deputados do Parlamento ucraniano, heróis que defendem a liberdade e o futuro do seu país, não há muito a fazer.
Talvez valha ainda a pena recordar a impossibilidade de um partido ou de uma nação poder resolver as suas dificuldades com as receitas de um passado longínquo, para mais quando vivemos um tempo de aceleração da mudança como o maior desafio. A tragédia do PCP é não ter ainda compreendido que a seguir ao 25 de Abril desperdiçou o capital adquirido no seu passado de luta e, dessa forma, ausentou-se do futuro de Portugal e dos portugueses e tem desperdiçado, desde então, a oportunidade de liderar os trabalhadores portugueses na adoção das mudanças necessárias.
Recordo que, no seguimento do 25 de Abril, fui convidado pela Intersindical para uma intervenção pública onde defendi que o futuro dos trabalhadores portugueses residia no conhecimento e que a educação dos seus filhos deveria ser a prioridade das lutas sindicais. Foi remédio santo, nunca mais fui convidado.

Março 31, 2025 . 12:00

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